domingo, 1 de abril de 2012

Postais do Ceará


O fotógrafo, o “fazedor de imagens”, é parte ativa na formação do inconsciente imaginético dos lugares e dos símbolos de uma população, ou estes lugares e símbolos se impõe por si só com a inerente força do que representam?

Sem querer tecer maiores considerações (que deixo para outro texto) acredito na primeira hipótese. O “registrador de imagens”, aquele que capta, seleciona e dá seu ponto de vista sobre os lugares e símbolos de um povo e de uma região tem uma responsabilidade sobremaneira na imagem que se forma inconscientemente no povo sobre esses mesmos lugares e símbolos. 

Nesta semana tive a chance de ver a Exposição “Postais do Ceará”, que se encontra em cartaz no MIS - Museu da Imagem e do Som do Ceará, realizada pelo Ifoto – Instituto da Fotografia e que já passou pelo Centro Cultural dos Correios em Fortaleza e tem a curadoria de Silas de Paula e Tiago Santana. Nota-se pelas imagens expostas que os fotógrafos que participaram da mostra parecem bem conscientes de sua utilidade, importância e influência nesta chamada ‘Visão’ que se têm do Ceará através do registro de seus símbolos e lugares.

A maioria das imagens parece superar o cartão postal convencional, sem perder a condição de tal. Não vendem apenas uma beleza estereotipada e dirigida para um turismo banal. Há opinião mesmo buscando a beleza e a divulgação do Ceará.

A imagem que mais me impressionou foi a de Henrique Torres: o portal de entrada do Theatro José de Alencar visto pela perspectiva de um espelho quebrado. Como se fosse uma obra de Picasso, a fachada do teatro ficou toda fragmentada na imagem. O símbolo maior da cultura do Ceará recortado e distorcido como um mosaico numa incerteza e numa multiplicação de possibilidades.

A partir dali compreendi a exposição. Tal grupo de fotógrafos não quer apenas ‘vender’ o Ceará para o turista (eles querem isso também). Mas querem mostrar nossa terra de um ponto de vista inteligente e crítico.

Em outra foto (por Marcelo Isola) uma jangada, o mar e a duna. Nada mais normal para um cartão postal do Ceará. O detalhe é que estão dispostos numa geometria que faz referência direta ao concretismo e neoconcretismo, movimentos artísticos importantíssimos no Brasil do Século XX. Além de evocar as obras de Sérvulo Esmeraldo, um dos mais importantes artistas plásticos cearenses. A imagem fez de um ícone do Ceará (a jangada, o mar e duna) uma obra concreta via a possibilidade da fotografia. É o diálogo do cartão postal com a importância e liberdade autoral das artes plásticas (só ratifica que fotografia também é artes plásticas).

Fernando Jorge, ao mostrar um pescador apoiado no mastro ‘derriado’ de sua jangada contemplando as ‘Velas do Mucuripe’ também ‘derriadas’ como se refletisse sobre essa atividade artesanal que lhe dá sustento e suas possiblidades no futuro, nos põe a pensar a mesma questão como se o problema fosse também nosso (e é mesmo). Não são só as ‘Velas do Mucuripe’, é também o porquê das ‘Velas...’

Alex Costa mostra um ‘gaiato’ (símbolo do peculiar humor cearense) fazendo graça defronte a Catedral Metropolitana e tem as torres a lhe servir de chifres parodiando o corno, essa fonte inesgotável de gozação pelas ruas da cidade.

A fotógrafa Bia Fiuza capta um jumentinho percorrendo uma faixa de areia próxima ao mar e um homem a observá-lo. É uma clara referência aos camelos e dromedários do deserto do Saara, tão populares. O jumento é nosso camelo e a aridez de nossa terra é quase tão quão um deserto. Nada mais pertinente, nada mais referente ao turismo do Norte da África. Porque não damos a mesma importância ao jumento como é dada ao camelo? Porque queremos esconder que parte da nossa população vive como num deserto?

Como pode ser literalmente visto, há um grupo muito competente de fotógrafos no Ceará, dos quais estes que compõe a exposição “Postais do Ceará”, é uma amostra muito bem selecionada, que está consciente de seu papel como parte ativa (como bem diz o pesquisador e fotógrafo Silas de Paula no texto curadorial) na formação da imagem do Ceará no inconsciente coletivo. E diante disto, exercita e executa seu olhar não apenas para ‘turista ver’, mas para todos nós pensarmos.

É a fotografia com consciência e opinião, que quer também registrar a imagem do Ceará de forma positiva, mas não se submetem a pasteurização de seu trabalho e à ‘imagem fácil’.  Eles trabalham com força, e mesmo com coragem, registrando os lugares e símbolos de nossa terra usando não só a beleza como arma, mas a reflexão crítica.



Folder da Exposição "Postais do Ceará" com a fotografia de Marcelo Isola
fonte: http://baiaoilustrado.tumblr.com


Fotografia de Carlos Gibaja
fonte: http://www.fotoclubef508.com/2010/12/exposicao-postais-do-ceara/

Fotografia de José Albano
fonte: http://www.saraivaconteudo.com.br/Noticias/Post/40836

Fotografia de Celso Oliveira
fonte: http://fecop.seplag.ce.gov.br/noticias/exposicao-201cpostais-do-ceara201d-chega-ao-centro/


Realização:

Curadoria

Fotógrafos

Serviço:
Entrada franca.
85 3101 1207.

Fortaleza – CE, março de 2012.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"How to keep it real?" – Livro Viva Fortaleza

Assistindo a um desses programas de tv a cabo, numa sátira aos ‘coachs’ de futebol americano, me deparei com um gritando “Let’s keep it real!”. Seria ótimo se a própria realidade não fosse um valor relativo, e não absoluto, como tendemos a acreditar.

Em matéria de história e do tempo, a verdade, como diz o poeta, é que o futuro sempre vem. Por isso mesmo, o hoje presente e real, não passa de um pedaço do caminho a percorrer e que está sempre em modificação.

A exposição e o excelente livro, Viva Fortaleza, Terra da Luz Editorial, lançado recentemente é uma tentativa saudável e um exemplo do que podemos fazer para, em termos de história, “keep it real!”.

Os organizadores do projeto, Patrícia Veloso e Gylmar Chaves, fizeram um excelente trabalho partindo da fotografia como base. Serviram como material, arquivos de grandes fotógrafos cearenses e de famílias e personalidades que mantém acervos fotográficos e de objetos da história da cidade, como os acervos da marchand D. Ignez Fiuza e do memorialista Nirez.

Mas as fotos são o ponto de partida, um mote para pensar Fortaleza nesses últimos 50 anos. Patrícia convidou além de fotógrafos, intelectuais e escritores como Demitri Túlio e Lira Neto para contar histórias sobre a cidade e a refletir sobre a mutante Fortaleza. Propôs também novos ensaios fotográficos e novas visões sobre o tema.

O resultado da exposição e do livro é um recorte de Fortaleza com a visão de várias personalidades que de certa forma participaram ou foram testemunhas dessas mudanças. Há a tentativa de registrar a realidade e história dessa cidade que virou uma grande metrópole numa rapidez incomum.

É inevitável que o registro não seja só de Fortaleza, mas das incríveis e rápidas mudanças que ocorreram na cidade nesses 50 anos. Daí a preciosidade da publicação.

Mas mesmo que Fortaleza não mudasse tão freneticamente (e parece que vai mudar mais ainda nos próximos anos) não conseguiríamos preservá-la em sua inteireza e fidelidade. As mudanças, em qualquer grau de velocidade, são inevitáveis e inexoráveis.  O Louvre preservará a Mona Lisa o máximo possível, mas um dia, como diz a profecia bíblica, tudo virará pó. Tal qual a música cantado por Lenine, tudo é, no final, areia.

Entretanto podemos fazer algo que vá além da matéria e do real. Cultivar seu valor cultural. Que já não está mais na esfera do tangível, mas da consciência e, mais ainda, da consciência coletiva.

É isso que o livro Viva Fortaleza faz – aliás, o livro é a segunda etapa do projeto "Memórias da Cidade" que já tem publicado o livro Ah! Fortaleza.  Cultivar e fomentar a reflexão sobre a Cidade. Uma cidade tão veloz em suas mudanças que chega a ser difícil apontar uma identidade para ela. Alguém já disse que a mudança constante é a própria identidade de Fortaleza.

Fotógrafos como Gentil Barreira e Nelson Bezerra, só para citar alguns, desempenharam e desempenham até hoje um trabalho que além da estética e do óbvio registro, realiza uma função social e documental da história da cidade. Seu material e acervos são mais importantes ainda pelo fato da constante e veloz transformação dos espaços e da cultura da capital. O livro, apesar de não ter sido feito com o propósito paradidático, é indispensável às atuais e futuras gerações na construção desta nossa “realidade” e deveria ser necessariamente acessível às escolas e universidades.

(...)

Não, não é pra sempre. Nada é para sempre. Tudo está em transição e transformação e não conseguiremos congelar o passado como se imagina (erradamente) possa ser a função dos museus. Mas podemos sim, e deveríamos sempre, pensar a história e criar diálogos entre o passado que não existe mais no “real” (mas existe através da memória), e o presente que estamos construindo agora.

Não sei se surgirá um futuro melhor (não há certezas absolutas também), mas provavelmente um futuro mais consciente, mais participativo da sociedade e mais seguro no que pretendemos construir como “realidade”.

Cito um excelente trabalho precedente a este, um pouco diferente é verdade, mas que serve como referência e que hoje tem um valor inestimável: o acervo de Marc Ferrez (1843 - 1923). Hoje sob curadoria do IMS – Instituto Moreira Salles.

Ferrez ainda no tempo de uma fotografia incipiente documentou o Brasil e em especial o Rio de Janeiro de forma pioneira. O resultado belíssimo das imagens transcende o aspecto estético evidente, para ser, além de belo, registro documental. Um registro histórico de valor cultural incalculável.

São documentos-imagens de uma época que não ficou congelada na história, mas está registrada pela visão e esforço de um artista e documentarista precursor no que fez e modelo para os fotógrafos atuais e futuros. Seu trabalho hoje dá subsidio para as transformações que o Rio de Janeiro passará para sediar a Capa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Pode-se assim, contribuir e ser agente consciente em termos histórico e cultural nas transformações sobre a realidade. Publicações como Viva Fortaleza são instrumentos (no Ceará, instrumentos raros e preciosos) para esse exercício de consciência na transformação inexorável da realidade e na tentativa de na medida do que for possível: “Keep it Real!”

SERVIÇO:
A partir de 06 de dezembro de 2011.

(85) 3261.0525, 8814.4593


Enio Castelo

Fortaleza – CE, janeiro de 2012.


Capa do Livro "Viva Fortaleza", Terra da Luz Editorial (Divulgação)

Foto de Maurício Albano para a publicação "Viva Fortaleza" (Divulgação)



Duas imagens de Fortaleza em épocas diferentes (Divulgação )
fonte: http://vivafortaleza.blogspot.com

Foto de Nelson F Bezerra (Divulgação)




quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Proposta curatorial inovadora em 6 x Albano

Em 6 x Albano, exposição que está em cartaz no Espaço Cultural Correios em Fortaleza até o dia 5 de novembro, o conteúdo fotográfico estava lá, apesar do ecletismo das imagens, contudo a curadora Jeanne Duarte conseguiu realizar uma proposta de exposição que valorizou ainda mais as fotografias, os artistas (José Albano, Maurício Albano, Ciro Albano, Ricardo de Aratanha, Mario de Aratanha e Fernando de Aratanha), e porque não dizer, o público. 

Sem conteúdo não se faz uma exposição fotográfica (ou qualquer exposição) que valha a pena. Mas mesmo se houver conteúdo uma mostra de fotografias pode ficar aquém do que poderia ser sem uma curadoria competente.

Sabe-se da explosão do vídeo nos últimos anos e fenômenos como YouTube são reflexos disso. Poderia se pensar que com a evidência do vídeo as imagens estáticas como a fotografia ficariam desvalorizadas. Mas não é o que parece acontecer, afinal, a invenção irmãos Lumière não é mais do que imagens em sequência e em determinada velocidade dando idéia de movimento. Ou seja, todo filme é composto por imagens estáticas.
Na exposição que mostra o trabalho dos Albano e dos Aratanha a curadora soube usar da facilidade do vídeo e do seu baixo custo como instrumento eficiente e produtivo na exposição de 400 imagens sem a necessidade de imprimi-las.

Pelo formato como os vídeos foram expostos ficou muito interessante relacionar, ou melhor, misturar os seis fotógrafos unidos pelos laços familiares em vídeos para que depois tentássemos separar suas estéticas particulares.

Foram colocadas três telas passando as fotografias sem o crédito e misturadas. Depois noutra sala as fotos e seus respectivos créditos eram-nos revelados em outras três telas.

Essa idéia forçou os expectadores a interagir intelectualmente com as imagens. Como num jogo começamos a separar as fotos de temáticas diferentes e começamos a enxergar o olhar de cada fotógrafo. Nada é mais preciso para um artista quando ele pode ser identificado por sua arte, (por seu traço, diriam os desenhistas) por sua estética particular. Aí sim temos o artista.

E nada melhor para aprender fotografia do que ver fotografia. Quando começamos a separar a visão de cada fotógrafo aprendemos que também devemos particularizar a nossa.

Se fossem seis fotógrafos a esmo, talvez o resultado não fosse tão bom. Quando temos seis fotógrafos unidos (ou separados) por uma história de vida e pelos laços de parentesco temos o mote da exposição, justamente misturar para depois separar os artistas e as estéticas particulares, expandido.

É bom conhecer a história fotográfica dos Albano e dos Aratanha. Melhor ainda é poder aprender com ela de uma forma inusitada e criativa tendo uma experiência de arte que nos instiga a inteligência e o nosso lado lúdico, como a curadora fez acontecer.

Quando o curador Ivo Mesquita, na 28ª Bienal de São Paulo (A Bienal do vazio) propôs um andar inteiro vazio no pavilhão da Bienal e começou-se a questionar o tamanho da importância e da influência dos curadores na arte. Era quase como se os curadores fossem também artistas, as coisas ficaram meio nebulosas e parecia surgir uma crise.

Mas por que os curadores não podem ser vistos como artistas também¿ Cada vez mais a arte é concretizada por vários agentes, por meio de parcerias. Inclusive estão em moda os chamados coletivos (grupos de artistas que compõem assinam obras em conjunto – um bom exemplo no Ceará é o Grupo Acidum). Cada vez mais a arte é feita de apropriações de outras obras. Por que não um curador apropriar-se de obras e propor em uma mostra com um quê de “sua arte”, de sua própria estética¿ De forma alguma é menosprezar as artistas e as obras, mas antes de tudo colocá-las num contexto, proporcionar leituras e opinar. Neste caso com bastante sucesso e propriedade pela curadora Jeanne Duarte.



Enio Castelo 

Outubro de 2011 

Imagens:

Foto de Ricardo de Aratanha (Divulgação)
fonte: http://www.opovo.com.br/



Foto de Ciro Albano (Divulgação)
fonte: http://diariodonordeste.globo.com/


Serviço:
Exposição
6 X ALBANO
22 de setembro a 05 de novembro (2011)
seg a sex 8h às 17h/ sáb 8h às 12h
Espaço Cultural Correios
Rua Senador Alencar, 38 – Centro – Fortaleza - Ceará
Gratuito
(85) 3255 7275
http://6xalbano.blogspot.com/

Links relacionados:
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2011/09/21/noticiavidaeartejornal,2301922/parentada-reunida.shtml
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=2271&cd_item=3&cd_idioma=28555
http://www.birdwatcher.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=238:ciro-albano&catid=48:entrevistas&Itemid=67
http://www.fa7.edu.br/galeria/4/mauricio.htm
http://framework.latimes.com/who-we-are/ricardo-dearatanha/
http://6xalbano.blogspot.com/2011/08/um-pouco-do-que-sera.html
http://fernandodearatanha.com/
http://www.youtube.com/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Auguste_e_Louis_Lumi%C3%A8re
http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1046261
http://www.28bienalsaopaulo.org.br/apresentacao
http://www.artecapital.net/entrevistas.php?entrevista=57
http://pt.globalvoicesonline.org/2008/11/09/brazil-a-bienal-do-vazio-enche-a-blogosfera/
http://grupoacidum.art.br/

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Curadora Rosely Nakagawa fala sobre a Fotografia no Nordeste


Ainda como programação do Encontros de Agosto 2011, evento de iniciativa do Fórum da Fotografia - Ceará que discutiu em Fortaleza a temática da Fotografia Contemporânea e realizou uma série de boas exposições, haverá palestra da arquiteta e curadora Rosely Nakagawa (SP) que abordará o tema "A fotografia no Nordeste: percursos e perspectivas" no CCBNB de Fortaleza, nesta quinta, dia 29 às 19h30.

Como aperitivo confira entrevista da curadora no site OlhaVê.
Folder de Divulgação

Serviço:
Palestra
A fotografia no Nordeste: percursos e perspectivas
Rosely Nakagawa (SP)
29 de setembro, quinta feira às 19h30
Centro Cultura Banco do Nordeste
Rua Floriano Peixoto, 941, Centro, Fortaleza - CE
+ 85 3464 3108

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A Londres de José Guedes

Qual a proximidade entre a pintura e a fotografia¿ Ou melhor, qual a distância¿ Em quais aspectos a fotografia é pintura, e a pintura é fotografia. Estas perguntas parecem superadas na arte contemporânea, mas o público em geral ainda se pergunta: é foto ou é uma pintura¿ 

No início da fotografia os então fotógrafos queriam dar contornos de “arte” à fotografia, eram os pictorialistas que equiparavam a fotografia à pintura então maior expressão de arte da época. Com o passar do tempo fotógrafos como Paul Strand que capturavam imagens com o interesse em reproduzir a “realidade” (os chamados realistas) e com a popularização de iniciativas como a da Kodak que tornou a fotografia acessível a muitas pessoas é que fotografar começou a ser visto como uma maneira de expressar a “verdade”. 

Hoje impera a liberdade. Ainda há os fotógrafos documentaristas que procuram mostrar os fatos. Mas claro que esses fatos estão sempre impregnados de uma visão de mundo e o recorte da câmera é antes de tudo uma posição política. Ocorre que a verdade está à disposição de quem fotografa e mostra sua opinião sobre os fatos. Além ainda da questão da manipulação digital (ou mesmo analógica) da imagem que pode ser trabalhada e distorcer a “realidade” em favor de uma “verdade desejada”. 

Ao mesmo tempo a fotografia é cada vez mais usada nas artes plásticas em diferentes contextos, aceitos pelos curadores tendo em vista que a arte contemporânea já superou a questão do suporte que pode ser múltiplo e variado e que está sempre em função da idéia e da estética do artista. 

José Guedes com a exposição virtual “Londres”, que esteve hospedada no FaceBook, coloca essas questões em discussão. Mas com uma clara e consciente noção que não esta praticando a fotografia documental. Apesar de suas imagens tangenciarem esse aspecto – mesmo porque escolheu Londres como palco para as imagens. 

Ele que começou sua trajetória de artista plástico ligado à pintura nos mostra nesta exposição a face pictórica que pode ter a fotografia. Há nas fotos uma preocupação com a cor, com a composição e com a idéia. Para isso não hesita em usar a manipulação eletrônica (leia-se tratamento eletrônico da imagem) para obter a fotografia/pintura que deseja. Aqui o método fotográfico é só o principio da criação da obra. Um instrumento a captar cenas do cotidiano de Londres que depois foram trabalhadas às ordens do conceito que o artista propõe a nos mostrar. 

Há desfoques explícitos, cores super saturadas e as figuras humanas que geralmente compõe as imagens, mas que não estão lá como centro das atenções. Estas características remetem a uma opinião e eu diria que até mesmo a uma crítica à cidade de Londres e aos londrinos. Ou, quem sabe, uma sugestão de mudança. 

Numa cidade em que as pessoas estão sempre preocupadas com seus afazeres e o trabalho, suas metas e seu “foco”. Bem como a característica cinzenta da cidade que permite poucas cores e lhe dá um ar de sobriedade. Guedes enfatiza as características pictóricas das imagens com detalhes em cores fortes, o desfoque acentuado, e, ainda, compõe as cenas levando as pessoas a integrarem a paisagem. Num manifesto por uma Londres mais colorida, mais relaxada e mais humana. 

A mostra não deixa de ser um documento, como as cidades de Cristiano Mascaro o são, ou como a Paris de Eugène Atget. Mas é um documento pelo contraste, não pelo cominho nítido e real de Mascaro e Atget. Para Guedes, mais importante do que a Londres que é, é o que ela poderia vir a ser, pelos olhos, digo, pela opinião do artista. 


Setembro de 2011 

Links relacionados
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vidaearte/2011/07/25/noticiavidaeartejornal,2271035/facebook-vira-galeria-para-artista.shtml
http://pt.wikipedia.org/wiki/Pintura
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fotografia
http://www.google.com/search?q=Paul+Strand&hl=pt-BR&biw=1280&bih=705&prmd=imvns&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=fEhyTsr9I9GfsQKIw8mACg&ved=0CCsQsAQ
http://www.infopedia.pt/$pictorialismo
http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_contempor%C3%A2nea
http://www.joseguedes.com/
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=1471
http://www.google.com/search?q=atget+eug%C3%A8ne&hl=pt-BR&biw=1280&bih=705&prmd=imvns&source=lnms&tbm=isch&ei=2UxyTt7hEpHJ0AHK8-2fDg&sa=X&oi=mode_link&ct=mode&cd=2&ved=0CBAQ_AUoAQ
 

Imagens relacionadas

Divulgação
José Guedes
fonte: http://www.opovo.com.br

Capa do Livro Paul Strand Olhar Direto editado pelo Instituto Moreira Salles
fonte: http://ims.uol.com.br/

Foto por Cristiano Mascaro - Pico do Jaraguá - São Paulo - SP
fonte: http://www.itaucultural.org.br

Foto por Eugène Atget
fonte: http://phomul.canalblog.com



segunda-feira, 18 de julho de 2011

apneia de filipe acácio

Um ótimo livro do guru de administração Tom Peters, chamado Reimagine, dedica um capítulo inteiro ao design. Considera essa atividade fundamental para os negócios afirmando que o administrador deve pensar como um designer.

Um fotógrafo pode não ser um designer e fazer um belo trabalho. No entanto um designer tem na fotografia um instrumento maravilhoso para exercer design e fotografia (ou fotodesign).

No mesmo livro Peters defende que o cliente, o fornecedor e o funcionário não querem só comprar, vender ou trabalhar, eles querem ter uma experiência sensível, vivenciar de uma forma preciosa a relação de negócio que lhes dê significado a este ato. Como exemplo ele cita as pessoas que compram motos, e estão dispostas a pagar mais caro ainda por motos Harley-Davidson. Não porque precisam se transportar, mas porque querem vivenciar a liberdade e o poder que as motocicletas evocam. Quanto mais uma Harley-Davidson.
Mudando dos negócios para a fotografia de arte, o expectador, como o cliente para Peters, quer também vivenciar uma experiência singular, quer sentir algo. É isso que filipe acácio proporciona com o ensaio apneia, apreentado na Galeria Vida & Arte do jornal O Povo (publicado em 10/07/2011).


[apneia]01 - do arquivo pessoal do artista

[apneia]02 - do arquivo pessoal do artista



Ele nos faz mergulhar sem água, prender a respiração e ver cores em tom de verde e azul num mundo paralelo abaixo d’agua. Ausente o ar, experienciamos o abismo que ele nos propõe. Com a comodidade de não ficarmos restritos aos dez segundos, temos todo o tempo da contemplação.

Não me arisco a dizer que filipe aqui foi designer (profissão com a qual nos é apresentado, além de fotógrafo), mas com certeza seu trabalho nos proporciona arte. Como Munch que nos faz “ouvir” o grito mesmo sem som em sua tela (O Grito), e como Monet que nos faz quase “pegar” as flores de Giverny. O fotógrafo-designer nos tira o ar e mergulhados em apnéia.

"O Grito" Fonte: http://entremundos.com.br


E embora o design não seja a característica marcante do ensaio, já que o trabalho é fundamentalmente arte contemporânea, os conhecimentos de design de filipe com certeza lhe foram úteis como instrumento para a fotografia que por sua vez também é instrumento para executar o trabalho e podermos, enfim, ter arte.

Mas deixemos os rótulos e tecnicidades de lado e vivenciemos um mergulho em apneia pelo abismo.


Julho/2011.


Links relacionados

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Livro “Patativa do Assaré - o sertão dentro de mim”

O poeta Patativa do Assaré é um ícone do Nordeste. Faz parte do imaginário do povo e é um clássico da literatura da região. Mas que um regionalista e que um representante da arte do povo nordestino ele é um artista universal. Como, aliás, são todos os clássicos.

Patativa do Assaré - o sertão dentro de mim

Cantado por Luiz Gonzaga e Raimundo Fagner, registrado cinematograficamente por Rosemberg Cariry, estudado na Europa e Estados Unidos, agora o poeta é tema do livro “Patativa do Assaré - o sertão dentro de mim” com fotografias de Tiago Santana e texto do pesquisador Gilmar de Carvalho.

Ainda não tive acesso ao livro, mas me arisco a escrever sobre a escolha do seu tema. Tiago Santana é renomado pelo registro que faz do povo mais sofrido do interior do sertão nordestino como em “Benditos” e "O Chão de Graciliano". Agora o fotógrafo se debruça sobre um exemplo puro da arte da região com o acréscimo da análise de um intelectual também pautado pelo tema do nordeste, o professor Gilmar de Carvalho. Nada mais coerente com o tema central da carreira do fotógrafo, o Nordeste, ou melhor, o nordestino.

Portanto, o livro, além de ser mais uma contribuição para imortalizar o poeta do Cariri, é também uma escolha acertada e coerente na trajetória do fotógrafo cearense, que já traçou seu caminho confirmando-se como um dos mais importantes fotógrafos a registrar a iconografia nordestina.

Julho de 2011.